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A relação entre alimentação e economia de água

A relação entre alimentação e economia de água

Geralmente, a economia de água é vista apenas sob a ótica do consumo consciente desse recurso natural essencial e limitado. No entanto, é raro considerarmos o significativo impacto hídrico oculto na produção dos alimentos que colocamos em nossas mesas todos os dias.

Calçados, produtos capilares, alimentos e medicamentos, praticamente tudo que consumimos utiliza água no seu processo de fabricação.

Isso significa dizer que a maior parte da água consumida no mundo não sai das torneiras e nem dos chuveiros, mas sim do processo de produção daquilo que consumimos.

E o setor de alimentos é o que mais exige esse recurso em toda a etapa da cadeia produtiva.

Segundo publicação da Secretaria de Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Rio Grande do Sul (Seapi), a agropecuária, sozinha, consome cerca de 80% da água disponível no planeta, seja na plantação, criação de animais, agroenergia e demais processos. 

Ainda de acordo com a Seapi, uma refeição brasileira padrão, que inclui itens básicos como arroz, feijão, carne, salada, massas, pão, tubérculos, frutas, suco e café, pode demandar o uso indireto de até 3.000 litros de água para sua produção.

Estudos sobre pegada hídrica indicam que diferentes alimentos consomem quantidades muito distintas de água para serem produzidos. 

Entender o que é pegada hídrica e compreender essas diferenças é um passo fundamental para promover hábitos mais conscientes e alinhados à economia de água.

Ficou interessado em saber quanto de água pode estar no seu prato diariamente e como você pode ajudar a reduzir esse consumo? Continue a leitura e confira.

A economia de água e a produção de alimentos

A água é um insumo essencial em todo o setor agroalimentar, desde o cultivo até a transformação industrial. 

E partindo dos dados já citados, a cada 10 litros de água usados no mundo, cerca de 8 vão para o setor de alimentação.

Seu uso varia conforme o tipo de produção e quanto maior for o nível de processamento e a complexidade da cadeia produtiva, mais quantidade de água é necessária.

Na agricultura, por exemplo, esse recurso natural é essencial para a irrigação, manejo do solo e demais processos que envolvem o desenvolvimento e a produtividade das espécies.

Quanto à pecuária, ela é usada para irrigar as pastagens, mantendo a qualidade do alimento destinado ao gado e também para a fabricação de ração.

Já na agroindústria, apesar da adoção de diversas tecnologias de economia hídrica, o consumo de água continua elevado. Isso se deve à necessidade de grandes volumes para etapas como lavagem e cozimento de alimentos, além da esterilização e limpeza de equipamentos e instalações.

Toda essa água, somada ao longo da cadeia produtiva, compõe o conceito que o pesquisador holandês Arjen Hoekstra (da UNESCO-IHE) chamou de pegada hídrica.

Compreender esse conceito é essencial para enxergar o impacto oculto de cada alimento e entender como escolhas mais conscientes no prato contribuem para um todo.

Pegada hídrica de cada categoria de alimentos

A pegada hídrica é o volume total de água empregado na produção de um bem ou serviço. Entender essa métrica é fundamental para promover o uso consciente e racional da água.

No caso dos alimentos, o nível da pegada hídrica varia significativamente conforme a categoria, o método de produção e a origem do produto.

Entender essas variações ajuda a identificar quais escolhas alimentares estão mais alinhadas à economia de água e à sustentabilidade.

Animal

Os alimentos de origem animal estão entre os que apresentam maior pegada hídrica, ou seja, que mais consomem água na cadeia produtiva.

A produção de carne bovina figura entre as principais vilãs do consumo.

Segundo o portal das Nações Unidas, a pegada hídrica de bovinos chega a 15 mil litros de água por quilo de carne, dependendo do sistema de produção, manejo e alimentação dos animais. 

Esse volume inclui água usada na irrigação de pastagens, na produção de ração e nos diversos processos e procedimentos que a carne passou até chegar na mesa do consumidor.

Já a publicação da Seapi, citada na nossa introdução, informa que:

  • por trás de um quilo de carne suína existem cerca de 5 mil litros de água,
  • já para a carne de frango são 3.500 litros.

Outros produtos de origem animal, como laticínios e ovos, também apresentam consumo hídrico elevado, embora inferior ao da carne bovina. 

Ultraprocessados 

Quando se pensa em economia de água no prato, precisamos considerar que alimentos ultraprocessados possuem uma pegada hídrica significativamente maior do que alimentos in natura. 

Isso ocorre porque, além da produção da matéria-prima, seja de origem vegetal ou animal,  o processo industrial envolve múltiplas etapas que exigem:

  • uso intensivo de energia, 
  • embalagens,
  • logística complexa para a matéria-prima sair do produtor, chegar na indústria e voltar para o consumidor.

De acordo com a Seapi, um simples hambúrguer consome cerca de 2.400 litros de água, antes de ir para o seu sanduíche.

Vegetal 

Quando a intenção é economia de água, os alimentos de origem vegetal, como legumes, grãos e verduras, tendem a apresentar menor pegada hídrica, isso comparados aos produtos de origem animal e aos ultraprocessados.

Culturas como feijão, arroz, milho, hortaliças e frutas da estação geralmente demandam volumes menores de água, especialmente quando produzidas de forma local e com técnicas agrícolas adequadas.

Já o vegetal industrializado demanda mais volume de água, para produzir um 1 kg de arroz são necessários 1.900 litros do recurso natural e um quilo de soja precisa de 1.650 litros.

Dicas práticas para economizar água pelo que você come

Promover a economia de água no dia a dia passa por pequenas mudanças de comportamento que, somadas, geram impactos significativos. 

A alimentação é um dos caminhos mais acessíveis para contribuir com a redução desse consumo.

Veja algumas práticas para isso:

Reduza o consumo de carne

Diminuir a frequência do consumo de carnes, especialmente a bovina, é uma das formas mais eficazes de reduzir a pegada hídrica individual. 

Substituir carnes por proteínas vegetais ou outras fontes de menor impacto contribui diretamente para a economia de água e, claro, para a preservação dos recursos hídricos.

Escolha alimentos sazonais e locais

Alimentos plantados fora de época ou transportados por longas distâncias tendem a consumir mais água e energia nos processos de cultivo, e durante a manutenção da produção.

Optar por frutas, vegetais e legumes da estação e de produção local contribui para diminuir a necessidade de irrigação intensiva e o uso de longas cadeias de suprimentos.

Priorize alimentos in natura

Escolher alimentos frescos e minimamente processados ajuda a reduzir o uso indireto de água e energia nas etapas de industrialização.

Além da economia da água, alimentos in natura têm melhor qualidade nutricional, logo são mais saudáveis. 

Evite desperdícios

Planejar compras, armazenar corretamente os alimentos e reaproveitar sobras são práticas essenciais de quem busca alinhar consumo consciente, economia de água e financeira, e qualidade na alimentação.

Como podemos observar, as nossas escolhas em relação àquilo que comemos têm impactos que vão muito além do prato, do sabor e do bem-estar.

Ao compreender a pegada hídrica dos alimentos e adotar escolhas mais conscientes, cada pessoa contribui para a preservação dos recursos naturais e para a construção de um futuro mais sustentável.

Economizar água não depende apenas de infraestrutura ou políticas públicas, mas também de mudanças culturais e comportamentais que começam dentro da nossa casa e do nosso prato.

Agora, que tal continuar aqui no blog para saber mais sobre escolhas inteligentes lendo também sobre consumo exagerado: uma batalha difícil de vencer?

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